My Bloody Roots – Max Cavalera

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Muitos que lerem esta autobiografia de Max Cavalera irão se identificar com a história pessoal do músico. Sabe aquelas reviravoltas da vida que transformam nossa existência e nossa maneira de se relacionar com o mundo? Dramático, Max descreve isso em várias fases do livro. Após o prefácio do fã do Sepultura e amigo de Max, Dave Grohl, tomamos contato com a história dos irmãos Max e Igor. Filhos de uma modelo italiana, Vânia, e de um profissional da embaixada Italiana em São Paulo, Graziano Cavalera, ambos tinham uma vida tranquila, com um padrão até considerado alto para o contexto brasileiro.

“Era uma vida realmente incrível. A ditadura sob a qual o Brasil vivia na época não nos afetou: na verdade, nunca tomamos conhecimento dela. (…) Éramos crianças, tínhamos um carro novinho em folha, um lindo apartamento e uma casa na praia. A nossa vida era perfeita”.

O que chama a atenção, desde o início da biografia, é que o candomblé atravessa os dezessete capítulos: ou seja, além do heavy metal, a religião é uma das bases existenciais de Max Cavalera, apesar de ter sido batizado no Vaticano. Os capítulos são divididos em fases de sua vida: o cotidiano da família Cavalera antes e depois da morte do pai, a mudança para Belo Horizonte e a queda no padrão de vida, os primeiros empregos, as aventuras dos irmãos rebeldes em BH, e como o heavy metal segurou as pontas quando a realidade bateu à porta dos irmãos Cavalera, tendo como estopim a morte do pai.

“A minha atração inicial pelo heavy metal surgiu por causa da situação em que me encontrava. Estava puto da vida e então a música assumiu o controle, falando diretamente à minha alma. Estava furioso e, de início, ouvia música apenas como uma válvula de escape. Depois, quando descobri que poderia me expressar com guitarra, vocais e letras, tudo mudou, cara. Ganhei uma arma. Ganhei uma voz. Ganhei uma nova maneira de pensar”.

No decorrer da biografia, Max aborda as polêmicas por trás das formações do Sepultura. A primeira cita o caso do primeiro vocalista, Wagner, e sua saída da banda, montando o Sarcófago, logo depois. Max e cia descobriram que o vocalista roubava os cabos de guitarra comprados por eles. E, por isso, Wagner foi expulso. Este foi o mesmo período em que Paulo Jr assumiu o baixo, mesmo não sabendo tocar.

“Mal sabíamos que levaria anos até que aprendesse a tocar a porra do baixo, até Chaos A.D ser lançado em 1993, quase dez anos depois! Mas não tínhamos opção: ninguém na cidade tocava baixo, e ele tinha um, então aquilo bastava para nós”.

A partir do capítulo 5, com o lançamento de Bestial Devastation/Século XX com o Overdose, as curiosidades sobre as produções do Sepultura são descritas.  A era de ouro do Sepultura começa a ser contada a partir do capítulo oito. Este conta algumas passagens da turnê alemã com o Morbid Angel e o Motörhead, em 1991. Além de ter deixado Lemmy puto em uma sessão de fotos, Max não autorizou que a banda tocasse Orgasmatron, durante a turnê. Max foi perguntar para Lemmy o motivo da negação e teve como resposta: “Quer saber por que não podem tocar Orgasmatron? Porque você canta da garganta. Precisa vir do estômago”. Até hoje Max não entendeu a chamada de Lemmy sobre sua técnica vocal. Outra cena que o grupo aprontou com Lemmy, durante a turnê, foi quando Lemmy e cia tocaram Ace of Spades em um dos shows. Todos os integrantes do Sepultura correram para o palco numa forma de vingança. Alguns integrantes estavam nus, e Max derrubou bebida na pedaleira de Phil. Nesta mesma parte, Max conta como foi a sensação de vomitar na perna de Eddie Vedder, durante a turnê do Sepultura com o Ministry, em 1992.

Nos capítulos 11 e 12, tomamos contato com os bastidores da produção e da repercussão de Roots, e a experiência da banda com os índios xavante. É muito interessante este capítulo, visto que a aventura antropológica apresenta não apenas um retorno às raízes culturais brasileiras: a avó materna tinha descendência indígena. Não deixa de ser um retorno às raízes familiares.

“Desde a música Kaiowas, em Chaos A.D., em 1993, eu vinha me perguntando se seria possível entrar na selva e conhecer os índios. Estes possuem uma história riquíssima e nenhuma banda de rock tinha tentado fazer algo parecido antes. Mas seria uma empreitada perigosa: eles matam os brancos e estão sempre em guerra com os fazendeiros da região”.

A partir de então, Max esclarece o cenário de sua saída do Sepultura, após o sucesso de Roots, e a morte do enteado Dana, filho de Gloria. “Os outros caras queriam se livrar de Gloria, porque desejavam um empresário com um escritório e uma agência grandes. Pra mim, a coisa era mais especial do jeito que estava, pois Gloria trabalhava apenas com a gente e assim tinha tempo para cuidar de todos os detalhes. (…) Expliquei a Gloria que havia recebido um ultimato: deveria escolher entre ela e o Sepultura. Escolhi ficar do lado dela”.

Após contar o período nebuloso em que “perdi meu enteado, o meu irmão e a minha banda num intervalo de poucos meses”, Max descreve como o Soulfly surgiu e se tornou um projeto bem sucedido. Alguns capítulos depois, o vocalista relata como a briga com Igor foi resolvida e como isso culminou em uma nova banda, o Cavalera Conspiracy.

“Perguntei ao Igor como foi fazer parte do Sepultura sem mim, e ele disse que foi horrível. Era como se não houvesse motivação, que estavam fazendo aquilo por fazer. Estavam se afundando cada vez mais”.

É uma autobiografia bem gostosa de ler. Max é dramático, mas engraçado ao mesmo tempo. Têm histórias divertidas sobre os bastidores de gravação dos álbuns, os projetos paralelos, as aventuras dos músicos pelo mundo, e a rede de amigos que Max construiu no decorrer dos anos longe do Brasil. É uma leitura legal para a gente compreender as negociações inseridas nesta relação do metal nacional com o cenário internacional, e as colisões que essa dinâmica pode gerar na trajetória dos músicos brasileiros de metal.

Críticas:

A) Em algumas passagens, sobra bala para os desafetos do músico. Fiquei incomodada com estes períodos, pois não há espaço para a pessoa do outro lado se defender.

B) Em outros momentos, fiquei incomodada com a forma como Max descreve o Brasil. Alguns preconceitos em torno do país foram reproduzidos. Já que o título original é The boy from Brazil, ele poderia ser mais ‘carinhoso’ com a descrição do nosso território;

C) Os inúmeros relatos de familiares, amigos, produtores etc, em vários momentos, ficaram totalmente jogados no corpo do texto. Acredito que tenha sido influência do estilo de Joel McIver, mesmo autor de O Reino Sangrento do Slayer, e outras biografias de bandas de metal;

D) Precisa de uma revisão de dados e de fatos. Tem nomes citados de forma incorreta, como o título do documentário Ruído das Minas, que no texto está como Metal em Belô 😀

Max

Nota: 9.0
Título: My Bloody Roots – Toda a verdade sobre a maior lenda do heavy metal brasileiro

Prefácio: Dave Grohl

Preço: R$23,90

ISBN: 9788522014200

Ano: 2013

Páginas: 207

Tradução: Roberto Muggiati

Editora: Agir

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